Compliance na Saúde: presente e futuro de um mercado em busca da autoregulação

Com prefácio de Giovanni Cerri, a obra aborda um conjunto de temas que trazem conhecimento e instruções fundamentais para entender este momento decisivo para o Brasil e para o setor de saúde brasileiro. A implementação de uma cultura ética, de uma cultura de compliance em um setor tão central como a saúde, serve como exemplo para toda a economia nacional.

Percorrendo as páginas do livro, encontraremos lições de autores com diferentes experiências profissionais e acadêmicas. Ensinamentos sobre como um programa de compliance pode ser implementado em uma instituição de saúde ou os rudimentos básicos de um código compliance. São capítulos repletos de exemplos do mundo real, enquadrando historicamente o compliance no Brasil e desvendando as implicações da abertura da saúde brasileira a investidores estrangeiros, no que tange a leis anticorrupção estrangeiras. Analisando a relação entre médico e paciente, entre liderança e trabalhadores, sob a lente da ética, mostrando evidência de que as instituições mais éticas apresentam um diferencial competitivo ou aferindo o papel das operadoras no movimento por um setor autorregulado. E, vivendo numa era de proliferação de soluções tecnológicas, a adoção de ferramentas inovadoras deve respeitar diretrizes que protejam a informação que, em uns e zeros, atravessa as rotas digitais, levando dados privados com garantia da preservação da segurança.

O livro vem introduzir o conceito de overuse. O uso excessivo de tratamento ou terapia ou exames leva anos de debate nos Estados Unidos, mas ainda se encontra no desconhecimento em nosso país. O fenômeno existe, mas falta dissecá-lo. A obra pretende ser o primeiro passo para o estudo do overuse no Brasil.  

O livro Compliance na Saúde: presente e futuro de um mercado em busca da autoregulação, é a primeira publicação do gênero no Brasil. A obra vem clarificar a discussão sobre ética, compliance e combate à corrupção, trazendo para o debate o conceito de overuse.

Lançada durante a III Edição do Fórum Hospitais Compliance, a sua primeira edição inclui contribuições originais assinadas pelos principais especialistas de compliance nacionais e internacionais. Este livro é ideal para profissionais de compliance e para todos quantos se interessam pelo tema, motivo que os leva a procurar mais elementos sobre princípios de compliance.

Ética em saúde ética não é apenas sobre decisões tomadas pela liderança ou em escritórios executivos e salas de reuniões, estende-se a toda a hierarquia, empregadores e empregados, prestadores de serviços e operadoras. Toda a organização de saúde está comprometida com os direitos dos doentes e na prestação dos melhores cuidados de saúde, com a gestão cuidadosa dos recursos, com as condições de trabalho para os funcionários, com o serviço à comunidade, e a realização de negócios cumprindo leis e regulamentos, distinguindo entre o caminho certo e da maneira errada na tomada de decisões.

Em 2015, Francisco Balestrin lembrou a fábula do beija-flor, em que todos os animais fugiam de um incêndio. “Enquanto todos fugiam, o beija-flor tentava, sozinho, apagar o incêndio. Ele sabia que sozinho não o conseguiria apagar, mas ele estava fazendo a sua parte. E é isso que cada um de nós tem que fazer”.

PREFÁCIO 
Giovanni Cerri

COMO CONSTRUIR UMA CULTURA DE COMPLIANCE EM INSTITUIÇÕES DE SAÚDE 
Francisco Balestrin

20 ANOS DE ABIMED: EVOLUÇÃO E PERSPECTIVAS DO COMPLIANCE HEALTHCARE NO MERCADO BRASILEIRO 
Luis Felipe Kietzmann
Roberto Heckmann

TONE AT TOP E TONE AT MIDDLE E A GOVERNANÇA CORPORATIVA
Leni Hidalgo Nunes

PROGRAMAS DE COMPLIANCE – O QUE VOCÊ PRECISA SABER
Alexandre da Cunha Serpa

DESCOMPLICANDO UM PROGRAMA DE COMPLIANCE: UMA TENTATIVA DE SIMPLIFICAR O ENTENDIMENTO E BUSCAR ALTERNATIVAS QUE TORNEM MAIS EFETIVA SUA IMPLEMENTAÇÃO
Matheus Sabbag Leonel
Carla Montenegro

ÉTICA COMO DIFERENCIAL COMPETITIVO E AS CONSEQUÊNCIAS DA CONDUTA ANTIÉTICA
Alessandra Gonsales  
Karine Eslar

O IMPACTO DAS LEIS ANTICORRUPÇÃO ESTRANGEIRAS APÓS A ABERTURA DO SETOR AO INVESTIMENTO ESTRANGEIRO
Giovanni Falcetta  
Elysangela de Oliveira Rabelo
Fabio Molar Albano de Aratanha

PAPEL DAS OPERADORAS NO INCENTIVO A COMPLIANCE NA SAÚDE
Ana Regina Vlainich
Jorge Eduardo Scarpin
Katia Regina T.R. de Castro

CONSIDERAÇÕES ÉTICAS SOBRE A RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE
José Eduardo de Siqueira

PRIVACIDADE NA SAÚDE: PARA MUITO ALÉM DO SEGREDO
Gustavo Artese
Marina Alves Mandetta

O DILEMA ÉTICO DO OVERUSE
Vikas Saini

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Ethical companies are more profitable, says CEO of Volkov Law

Former US Attorney Michael Volkov is one of the most prominent voices in the United States when it comes to adopting compliance policies in large organizations. After 17 years in court dealing with unethical companies, Volkov decided to be a consultant to companies interested in knowing the intricacies to become examples of obedience to the law. The culture of ethics must be transversal to any type of company. And the healthcare industry is no exception, advocates Volkov Law’s CEO. He says companies and healthcare professionals are increasingly under the crosshairs of the DOJ’s new policies, with more aggressive surveillance and heavier penalties.

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Michael Volkov: We are on a path to greater compliance “enlightenment” — it will be an incredible journey.

  Passionate about traveling, arts and philanthropic activities and an avid tennis player, Volkov agreed to answer the following questions in July 2015.

You started your law career in 1982 and since then a lot changed in politics, law, ethics and compliance. What would you say were the main changes?

Michael Volkov — Over the course of my 30 year career, I have seen significant changes in politics, law, ethics and compliance. First, there has been a huge increase the volume and nature of criminal prosecutions of companies and individuals for white collar offenses, including bribery, fraud, AML, and antitrust violations. Criminal prosecution has replaced civil prosecutions as the primary engine of enforcement, deterrence and prevention. Second, in response to this significant trend, the last ten years has seen the risk of the compliance professional and the increasing importance of compliance as an established corporate governance function. With increasing criminal liability for individual executives and managers, companies have turned to internal ethics and compliance programs. Compliance professionals are the most sought after professionals for many industries right now, including pharmaceutical, medical device, service providers (e.g. hospitals), financial institutions, and oil and gas companies.

How does your past experience as federal prosecutor help you nowadays?

MV — My prior experience as a federal prosecutor has put me in a unique position — I am able to work with companies to institute proactive documentation and operational systems to prevent criminal liability for the company and individuals who work at the company. I know what types of evidence a prosecutor looks for and needs to build a criminal case, and I help companies to create systems that generate information to “negate criminal intent.” In other words, I make sure that there is record evidence to show that the company took great efforts to not act like a criminal organization.

You said “ethical companies are more profitable for numerous reasons”. Could you elaborate on that?

MV — I regularly advocate that companies committed to compliance should start with creating an ethical culture first — the best compliance control that a company can create and implement is a culture of ethics and compliance. No compliance system is perfect, and the most effective constraint on possible code and legal violations is a culture of ethics. Companies that have an ethical culture have lower incidents of misconduct and are more likely to report misconduct internally.

On the overall profitability, I have found research studies that show ethical companies are more profitable. This conclusion is fairly obvious — employees are happier at ethical companies because they believe in the organization and its leadership; employees are more productive and less likely to leave an ethical company — with lower turnover rates and higher productivity, companies are more likely to increase financial performance and profitability.

Some companies are repeat offenders, others create their own compliance codes but still they don’t practice what they preach and just use them as “window dressing”. Will that ever change? How?

MV — You have identified two of the biggest compliance problems across many industries — repeat offenders suffer from serious cultural deficiencies which usually reflect a disregard of compliance by the board, the CEO and senior management; and “paper compliance programs” which are those that are on paper but not implemented in practice. Both problems continue to plague companies — I see more paper programs than recidivists. Collateral consequences to companies that violate the law are increasing — shareholder lawsuits are rapidly increasing in number and demands. As a result, companies are realizing that spending money on compliance is a good investment over suffering serious consequence from criminal enforcement by the government and collateral consequences in private litigation.

From a corporate risk perspective, the greatest legal and compliance risk has to be the False Claims Act. Could you explain why?

MV — Companies in the healthcare sector, along with pharmaceutical and medical device companies face serious risks from the False Claims Act. First, the FCA enforcement program has been around for over 150 years; there are huge risks that relators/whistleblowers have in terms of financial rewards to report on companies that are earning revenues from fraud against the government. Second, the penalties are severe for FCA violations — each false claim is trebled (tripled) for damages calculations and can quickly add up. Third, and most significantly, a company cannot challenge the government’s enforcement action because if it loses they can be “excluded” from participating in federal healthcare programs. For most companies, they cannot survive without government reimbursement programs for healthcare services, and they have to settle the case rather than go to trial against the government.

The FCA risk has grown over the last five years as the Justice Department and the Inspector General for Health and Human Services have collected multi-billion dollar recoveries each year against healthcare providers (e.g. hospitals and doctors), and pharmaceutical and medical device companies.

In Brazil we have someting called “delator” which is similar to whistleblower. However, I believe there are some differences. Could you tell us a bit more about the role of the whistleblower? Is it an important role from an ethical point of view?

MV — Whistleblowers/Relators play a critical role in bringing False Claims Act cases. A relator will file a case under seal (meaning non-public) and inform the government of the filing and allegations. The government will review the case, and if they decide to join the whistleblower’s lawsuit, the government wins 99 percent of all of its FCA cases. This mechanism and procedure is the fuel for FCA enforcement and has been increasing each year. Whistleblowers have a financial incentive and are protected legally from retaliation. Companies have to be very careful when interacting with whistleblowers to ensure proper treatment.

You say that “CCOs in the healthcare industry need to be elevated and empowered. They have the title, they lack the resources, and they need to have a message of support sent.” What do board rooms need to do about this?

MV — CCOs in the healthcare industry have a very unusual history. Long ago, in the 1990s, the government recognized the importance of empowering an independent and separate CCP from the legal department. They insisted in every settlement that the CCO be separated and given greater authority outside the legal department. Unfortunately, in practice, the CCO has become a “backwater” player with inadequate authority and resources. Only now are we seeing some improvement in the stature of the CCO in healthcare companies.

Corporate boards have been asleep on many of these issues and have failed to proactively address the problems. With an aggressive enforcement environment, some boards at the larger companies have begun to address this issue and demand improvements in overall compliance functions, including elevating the CCO to a new role.

Do you really think that the lack of board commitment is the missing ingredient in making the healthcare industry more ethical?

MV — Yes, I do. I see “lip service” to the importance of ethics and compliance but there is little follow through on the issue. Corporate boards need to become more active in exercising their oversight and monitoring responsibilities.

Since 2010, in response to scandals and prosecutions in the healthcare sector, companies have had to separate the chief compliance functions from the chief legal officer. With that separation of the CCO and the legal function came a decrease of importance of the CCO. How can the healthcare industry turn CCOs into CCEOs?

MV — With the leadership of corporate boards, the CEO and senior management, healthcare companies have to elevate and empower the CCO function with authority, resources, and accountability for performance.

In 2014, the DOJ and HHS-OIG announced charges against individuals in several cities for Medicare fraud schemes involving approximately $260 million in false billings. Almost a third of those individuals charged were doctors, nurses, and other medical professionals. How would the CCO or the CCEO stop this from happening?

MV- Most of these criminals operate at a level below where compliance officers operate, meaning they work for themselves or small companies without a compliance function. These targeted fraud prosecutions are nothing more than common criminals using the healthcare system to steal money and commit fraud. These cases do not involve larger companies or medical organizations where compliance functions are operating.

You defined the five steps that the DOJ is using to fight healthcare fraud: 1. Focus on Providers, 2. Following the Money, 3. Using All the Tools, 4. Charging Professionals, 5. Quality of Care. Could you explain how each one works?

MV — Right now, DOJ relies on a pay and chase model for fighting fraud. In other words, they pay the provider, then check out the provider based on patterns and amounts of payments, find out he or she is committing fraud, and then seek/chase the provider to prosecute criminally and/or civilly to recover funds. The pay and chase model, by definition, is inefficient and unsuccessful as a real deterrent to stop fraud.

DOJ is prosecuting, after the fact, doctors and other providers for fraud but still losing money in the equation; using the full complement of criminal investigatory tools (undercover recordings, informants, search warrants, etc), and now bringing criminal and civil cases for poor quality of care as a type of fraud committed against the government, meaning that they are not providing minimum quality of care to patients but charging the patient/government for such services.

A more effective strategy is a proactive approach. Before a private insurance or public government agency pays a medical bill to a provider, there needs to be proactive due diligence steps to verify who the provider is, do they have an office, do they really provide services, and are they legally entitled to the money. The more money spent on proactive, pre-payment investigations, the more often private and public payers can identify potential fraud risks and prevent loss of any money.

I don’t know if you heard about the scandal in Brazil with Orthotics & Prosthetics, in 2014. I saw that something similar happened in the US. In 2013 the CMS had failed to stop the illegal practice of paying unlicensed providers for orthotic and prosthetic services provided to Medicare beneficiaries. a) Easy money talks and ethic walks? b) That case shows that we still have no way of learning from other countries’ mistakes or do you think that information doesn’t leave US borders?

MV — Unfortunately, incentives to commit fraud and other criminal acts are not limited by borders — criminals exist in every country and there is nothing to stop them from committing crimes in the healthcare sector. I am not familiar with the Brazil scandal involving Orthotics and Prosthetics, but I am not surprised by financial wrongdoing in this area since it is a high fraud risk area (like hospice and nursing facilities).

You wrote that compliance is not just a cost center, it is an important way to enhance the organization’s financial performance and reputational integrity. Reputation costs money or attracts money?

MV — Reputation protects a company by instilling a positive view of the company in employees, customers, suppliers and vendors — in many cases, companies suffer more from repetitional damage than financial burdens of a fine. Investing in compliance is a way to promote financial profitability by creating an ethical culture, and creating an image that the company can present to external stakeholders. That is important to promote a company with its stakeholders and its community.

“Is this right?” or “Is this legal?”. You wrote this stating that an ethical culture is much more than a compliance culture. But the law is based on moral, on what is right. How did those concepts become so far apart?

MV — I do not accept the premise of your question — what is legally correct is not necessarily what is ethically correct. The law defines legal values. The law does no define ethical values. Usually ethical values are focused on different issues and principles. Compliance with the law does not mean ethical compliance with our values. a Company has to define its ethical principles, usually with specific defined principles.

From all the cases you dealt with since 1982 both with the DOJ and private practice, can you see the light at the end of the tunnel? Is there hope for the healthcare industry?

MV — There is definitely hope for the healthcare industry. For the first time in our history, compliance is an integral part of our governance framework. There is a lot of work to be done but we are on the right path. Companies and individuals want to do the right thing — it is just a matter of dedicating resources and time and attention to this mission. The government has a lot of power and tools to make sure this happens, but all the enforcement in the world cannot bring about a dramatic change without the support, commitment and engagement of corporate boards, communities, CEOs, senior executives and compliance professionals. We are on a path to greater compliance “enlightenment” — it will be an incredible journey.

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Michael Volkov “Empresas éticas são mais rentáveis”

Para o ex-promotor federal americano Michael Volkov — uma das vozes mais relevantes dos Estados Unidos quando o assunto é a adoção de políticas de compliance –, as empresas e os indivíduos querem fazer a coisa certa. Trata-se apenas, segundo ele, de se dedicar tempo, recursos e atenção para esta missão.

O ex-promotor federal americano Michael Volkov é uma das vozes mais relevantes dos Estados Unidos quando o assunto é a adoção de políticas de compliance em grandes organizações. Depois de 17 anos agindo nos tribunais para incriminar empresas não-éticas, Volkov decidiu ser consultor de empresas interessadas em saber os meandros para se tornar exemplos de obediência à lei. “A cultura de ética deve ser transversal a qualquer tipo de empresa. E a indústria de healthcare não é exceção”, defende o advogado, CEO da Volkov Law. Segundo ele, as empresas e os profissionais de saúde estão cada vez mais na mira das novas políticas do DOJ (Departamento de Justiça Americano), que tornaram a vigilância mais agressiva e as penas mais pesadas.

Amante de viagens, artes e atividades filantrópicas e um ávido jogador de tênis, Volkov aceitou responder às seguintes questões em Julho de 2015.

Começou sua carreira na área jurídica em 1982 e, desde então, muita coisa mudou na política, direito, ética e compliance. O que de mais relevante ocorreu no EUA ao longo desse período?

Michael Volkov — Em 30 anos de carreira, tenho visto mudanças significativas na política, direito, ética e compliance americano. Em primeiro lugar, tem havido um enorme aumento do volume e da natureza das ações penais de empresas e indivíduos por crimes de colarinho branco, incluindo suborno, fraude, Anti-money Laundering — antilavagem de dinheiro, em tradução livre –, e violações antitruste. Os processos criminais substituíram os processos civis como motor principal de execução, dissuasão e prevenção. Em segundo lugar, em resposta a esta tendência significativa, nos últimos dez anos temos visto o risco à crescente importância do compliance como uma função estabelecida de governança corporativa. Com o aumento da responsabilidade penal para executivos e gerentes individuais, as empresas se voltaram para a ética interna e programas de compliance. Profissionais de compliance são, atualmente, os profissionais mais procurados para muitas indústrias, incluindo farmacêuticas, dispositivos médicos, prestadores de serviços — hospitais, por exemplo –, instituições financeiras e empresas de petróleo e gás.

Como sua experiência de ex-procurador federal influencia na sua carreira de advogado?

Volkov — A minha experiência anterior como procurador federal — atualmente estou aposentado — colocou-me em uma posição única. Porém, mesmo conhecendo todas as evidências que um promotor procura e precisa para construir um caso criminal, busco levar para meus clientes a noção de que ser um ator non compliance não compensa. Naturalmente, sou procurado por empresas interessadas em fugir de uma condenação ou simplesmente ter uma pena reduzida em ações da Justiça americana. Ter sido procurador federal, obviamente, me auxilia no domínio da técnica. Afinal, estive do outro lado. Sei como funciona.

Os funcionários de empresas éticas não mais fiéis?

Volkov — Sim e por razões bastante óbvias. Os colaboradores de empresas éticas acreditam na organização e na sua liderança. Eles são mais produtivos e menos propensos a deixar uma empresa que é referência em compliance. Com taxas de rotatividade mais baixas e maior produtividade, empresas éticas são mais propensas a aumentar o desempenho financeiro e a rentabilidade.

Algumas corporações são reincidentes, outras criam seus próprios códigos de compliance, mas, ainda assim, não “praticam o que pregam”. Pode comentar?

Volkov — Você identificou dois dos maiores problemas de compliance em muitas indústrias. Algumas são reincidentes porque sofrem de graves deficiências culturais que geralmente se refletem em forma de infração de suas regras de compliance por parte do conselho, CEO e da alta administração. “Programas de compliance de papel”, que nunca são postos em prática, em alguma medida também têm ligação com deficiências na cultura ética da organização. Ambos os problemas continuam atormentando as empresas — percebo a ocorrência de mais “programas de papel” do que empresas reincidentes em ações non compliance. Mas é preciso dizer que as consequências colaterais para as empresas que violam a lei estão aumentando em todo o mundo e as ações judiciais, por parte de acionistas “lesados”, estão aumentando rapidamente em número e exigências. Como resultado, as empresas estão percebendo que gastar dinheiro em compliance é um bom investimento. Cada vez melhor do que as sérias consequências da execução penal por imposição governamental ou consequências colaterais de litígios entre particulares. Defendo regularmente que empresas comprometidas com as regras de compliance devem começar por criar uma cultura ética em primeiro lugar. Empresas detentoras de princípios morais têm menor incidência de má conduta e são mais propensas a relatar internamente casos de má conduta.

O senhor costuma defender que os CCOs do setor de healthcare precisam ser elevados e fortalecidos. Eles têm o título, mas faltam recursos. O que pode ser feito?

Volkov — Os CCOs do mercado de healthcare têm uma história muito incomum. Há muito tempo, na década de 1990, o governo americano reconheceu a importância de capacitar um CCP (Certified Compliance Professional) independente e separado do departamento jurídico. Eles insistiram em cada acordo que CCO deveria estar separado do departamento jurídico e lhe deveria ser dada maior autoridade fora do departamento jurídico. Infelizmente, na prática, o CCO tornou-se um agente “estagnado”, com autoridade e recursos inadequados. Só agora estamos vendo algumas melhorias no estatuto do CCO em empresas de healthcare. Os conselhos de administração têm estado adormecidos em muitas dessas questões e não conseguiram resolver os problemas de forma proativa. Com um ambiente de aplicação agressivo desse tipo de política, direções de grandes empresas já começaram a abordar esta questão e a exigir melhorias nas funções globais de compliance, incluindo a elevação de CCO a uma nova posição.

 

 

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M. Volkov “Estamos num caminho para uma maior “iluminação” das atividades de compliance. E essa será uma jornada incrível”

 

Acredita verdadeiramente que o compromisso das direções é o ingrediente que falta para tornar o setor de healthcare mais ético?

Volkov — Sim. Eu vejo muitas palavras “da boca para fora” sobre a importância da ética e do compliance, mas há pouca ação. Os conselhos de administração devem tornar-se mais ativos no exercício da sua supervisão e do seu monitoramento de responsabilidades.

Você definiu as cinco etapas que o DOJ (Departamento de Justiça Americano) está usando para lutar contra fraude de saúde. Poderia explicar como cada uma funciona?

Volkov — Estamos falando de um processo que tem cinco fases: primeiro, focar nos provedores, depois, seguir o dinheiro, usar todas as ferramentas, cobrar dos profissionais, e, finalmente, qualidade da assistência. Atualmente, o DOJ se baseia em um modelo de pay-and-chase (pagamento e caça, em tradução livre) para combate à fraude. Por outras palavras, eles pagam ao provedor, em seguida, investigam o provedor baseado em padrões e montante dos pagamentos, procuram saber se ele ou ela está cometendo uma fraude, e em seguida, procuram/caçam o provedor para processar criminalmente e/ou civilmente para recuperar a verba. O modelo de pay-and-chase, por definição, é ineficiente e malsucedido como enquanto real dissuasor para acabar com a fraude. O DOJ está processando, após o fato consumado, os médicos e outros prestadores de fraude, mas continua perdendo dinheiro na equação; usando o conjunto completo de ferramentas de investigação penal (gravações camufladas, informantes, mandados de busca, etc), e agora trazendo casos criminais e civis por má qualidade do cuidado como um tipo de fraude cometida contra o governo, o que significa que eles estão fornecendo assistência sem a qualidade mínima aos doentes, mas cobrando do paciente/governo por tais serviços. Uma estratégia mais eficaz é uma abordagem proativa. Antes de uma agência seguradora privada ou governamental pública pagar uma conta médica para um provedor, é preciso haver etapas de due diligence (vigilância, em tradução livre) proativas para verificar quem o provedor é, se tem um escritório, se realmente presta serviços, e se legalmente tem direito a receber o dinheiro. Quanto mais dinheiro for gasto em investigações proativas e pré-pagamento, mais frequentemente os pagadores privados e públicos podem identificar potenciais riscos de fraude e evitar a perda de dinheiro.

O senhor escreveu que não podemos olhar para o compliance apenas como um centro de custo — um meio importante para melhorar o desempenho financeiro da organização e reputação de integridade. Reputação custa dinheiro ou atrai o dinheiro?

Volkov — A reputação protege uma empresa por incutir uma visão positiva da empresa nos colaboradores, clientes, fornecedores e vendedores. Em muitos casos, as empresas sofrem mais devido a danos reputacionais do que por encargos financeiros de uma multa. Investir em compliance é uma forma de promover a rentabilidade financeira através da criação de uma cultura ética, e criando uma imagem que a empresa pode apresentar aos stakeholders externos. Isso é importante para promover uma empresa junto dos seus stakeholders e de sua comunidade.

Depois de todos os casos com que lidou desde 1982, tanto com o DOJ quanto como profissional autônomo, consegue ver a luz no fim do túnel? Há esperança para o setor de healthcare?

Volkov — Existe, sem dúvida. Pela primeira vez em nossa história, o compliance é uma parte integrante da nossa estrutura de governança. Há muito trabalho a ser feito, mas estamos no caminho certo. As empresas e os indivíduos querem fazer a coisa certa. Trata-se apenas de se dedicar tempo, recursos e atenção para esta missão. O governo tem muito poder e muitas ferramentas para garantir que isso aconteça, mas toda a aplicação da lei no mundo não pode trazer uma mudança dramática sem o apoio, empenho e engajamento dos órgãos sociais, comunidades, CEOs, executivos e profissionais de compliance. Estamos em um caminho para uma maior “iluminação” das atividades de compliance. E essa será uma jornada incrível.

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Publicado em HunHu
Publicado no Portal DiagnósticoWeb
Publicado na Revista Diagnóstico